PARTE 2
“Meu amor, o que fazes aqui tão cedo? Não ias chegar apenas às 8?” A voz de Valeria fluía com uma suavidade doentia, enquanto ela caminhava na sua direção com os braços estendidos, pisando as folhas caídas.
Alejandro não conseguiu articular 1 única palavra. Os seus olhos saltavam da figura elegante da sua noiva para a forma encolhida de Carmen, que continuava ajoelhada na terra, a tremer convulsivamente. A jovem jardineira mantinha a cabeça baixa e os ombros encolhidos, assemelhando-se a um animal ferido que aguarda, submisso, o próximo castigo.
“Amor, não é nada do que estás a pensar”, apressou-se Valeria, forçando um sorriso compreensivo. “A Carmen tropeçou e caiu na lama. Eu estava precisamente a ajudá-la a levantar-se quando chegaste.”
“Eu ouvi tudo.” As palavras saíram secas e ásperas da garganta de Alejandro.
Valeria pestanejou 1 vez, depois 2 vezes. Alejandro conseguia ver perfeitamente as engrenagens da mente dela a girar a uma velocidade vertiginosa, à procura da mentira mais conveniente, de uma saída de emergência para aquela situação insustentável.
“Ah, querido, tu não entendeste o contexto”, ela soltou uma risada que soou nervosa e oca. “Nós estávamos apenas a brincar, não é verdade, Carmen?” Valeria virou o pescoço de forma rígida para a jardineira. O seu olhar carregava agora uma ameaça tão intensa e silenciosa que fez Carmen encolher-se ainda mais contra o chão.
“S-sim, é verdade, senhor Alejandro”, a voz de Carmen saiu trémula e quase inaudível. “Foi apenas 1 brincadeira.”
Alejandro olhou profundamente para a jovem manchada de terra. Viu as marcas de lágrimas recentes, o terror paralisante cravado nas suas pupilas. Aquilo não era 1 brincadeira. Nunca, em circunstância alguma, aquilo poderia ser 1 brincadeira. Sentiu algo fundamental a estilhaçar-se dentro do seu peito. A mulher com quem partilhara os últimos 4 anos da sua vida, a quem considerava o epítome da doçura e elegância na alta sociedade mexicana, era uma ilusão completa.
“Vês, meu amor?” Valeria aproximou-se e rodeou o pescoço dele com os braços, ignorando a rigidez do corpo de Alejandro. “Foi 1 simples mal-entendido. Agora diz-me, o que é esta surpresa maravilhosa?” O olhar de Valeria desviou-se para as rosas caídas e cravou-se com uma cobiça faminta na pequena caixa de veludo vermelho que ele ainda apertava na mão. Uma cobiça que ele, na sua cegueira apaixonada, nunca tinha registado antes.
“Não é nada”, disse ele, libertando-se abruptamente do abraço sufocante. “Esquece.” Virou as costas e caminhou em direção ao interior da mansão, deixando as rosas abandonadas no jardim.
Nos dias que se seguiram, Alejandro tornou-se um espectador silencioso na sua própria casa. A semente da dúvida tinha germinado e transformado a sua perceção. Começou a observar meticulosamente as interações de Valeria. Reparou no tom desdenhoso com que ela exigia o pequeno-almoço a Doña Rosa, a cozinheira idosa que trabalhava na casa há décadas. Notou os olhares de repulsa que lançava a Miguel, o motorista, por atrasos de meros 3 minutos no caótico trânsito da Cidade do México.
Decidido a descobrir a verdade irrefutável, Alejandro contratou 1 técnico de segurança de extrema confiança. Às 3 da manhã de uma terça-feira, enquanto Valeria ressonava suavemente nos lençóis de seda egípcia, dezenas de microcâmaras foram estrategicamente instaladas em todas as divisões e áreas exteriores da propriedade.
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